Fui para a Califórnia por conta de um compromisso pessoal e aproveitei a oportunidade para visitar o maior centro de inovação tecnológica do mundo, o Vale do Silício. Passei pela Nvidia, Netflix, Google, Apple e Meta, estive em Stanford e procurei observar aquele ambiente não apenas como visitante, mas como empresário interessado em entender o que está acontecendo por trás das tecnologias que já começam a transformar a maneira como trabalhamos e fazemos negócios.Andei pela região, conversei com jovens e frequentei seus lugares preferidos. Observei os restaurantes das próprias empresas e entrei na loja do Google para ver quais equipamentos estão sendo colocados no mercado. São detalhes que ajudam a compreender uma cultura em que inovação não aparece como um projeto isolado, mas como parte da rotina. Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a diversidade daquele ambiente, com pessoas de diferentes nacionalidades, culturas e experiências convivendo em torno dos mesmos projetos. Índia, China, Paquistão, Brasil e tantos outros países estão representados naquele ecossistema, reunindo diferentes formas de pensar diante dos mesmos problemas.Foi nesse contexto que passei a enxergar a inteligência artificial de uma maneira diferente. Antes da viagem, eu a via muito mais como uma ferramenta para tarefas específicas, como desenvolver um projeto, fazer cálculos ou organizar informações. Depois de observar mais de perto como Nvidia e Google trabalham, percebi que esse é apenas o ponto de partida. O potencial maior está na capacidade de conectar conhecimentos e informações em uma escala que, até pouco tempo atrás, seria praticamente inviável.Penso nisso a partir da minha própria experiência. Em um projeto de desenvolvimento imobiliário, continuo precisando do conhecimento que acumulei ao longo dos anos sobre terraplenagem, análise de solo, altura de platô, movimentação de terra e custos. Esse conhecimento não se perde diante de uma nova tecnologia. Ao contrário, torna-se ainda mais relevante quando combinado a dados de mercado, legislação ambiental, estudos de solo, planilhas de viabilidade e outros parâmetros necessários para o desenvolvimento do empreendimento.Uma análise que antes poderia levar um, dois ou três meses pode, dependendo dos dados e das ferramentas utilizadas, ser realizada em minutos ou poucas horas. O ganho não está apenas na economia de tempo, mas na possibilidade de reduzir o intervalo entre informação, análise e decisão. Em um negócio, isso significa avaliar mais oportunidades, corrigir estratégias com rapidez e movimentar a operação com mais eficiência. Uma experiência durante a viagem tornou essa percepção ainda mais concreta: os carros autônomos da Waymo – empresa do conglomerado do Google. Embora já tivesse acompanhado notícias sobre esse tipo de tecnologia, uma coisa é ouvir falar e outra é entrar no veículo, chamá-lo pelo aplicativo e vê-lo chegar sozinho. O que mais me impressionou não foi simplesmente o fato de um carro ser conduzido sem motorista, mas perceber que aquilo já faz parte da rotina local. Depois da experiência, liguei para minha filha e disse a ela sobre a necessidade de repensar o futuro dos meus netos. Não porque eu saiba como esse futuro será, mas porque ficou evidente que estamos tentando projetá-lo usando referências que podem deixar de existir muito antes do que imaginamos. No Brasil e em qualquer parte do mundo, quem sai na frente vence. O que está sendo desenvolvido naquele ambiente chegará a outros mercados. Pode levar mais ou menos tempo e enfrentar barreiras de infraestrutura, legislação ou custo, mas a tendência é que essas tecnologias se espalhem. A questão não é apenas quando chegarão, mas como as empresas devem se preparar enquanto isso.Existe uma diferença importante entre usar tecnologia para fazer melhor aquilo que já fazemos e usar a tecnologia para questionar se deveríamos continuar fazendo daquela maneira. A primeira mudança está relacionada à eficiência, enquanto a segunda pode alterar o próprio modelo de negócio. As empresas mais avançadas não estão apenas automatizando processos existentes. Estão investindo em dados, capacidade de processamento, infraestrutura e novas formas de organizar o trabalho porque sabem que o volume de informação continuará crescendo.Por isso, não vejo a inteligência artificial apenas como uma discussão sobre substituição de profissionais. O que pode mudar de maneira mais profunda é a forma como o trabalho de diferentes especialistas será combinado. Um advogado, um arquiteto, um engenheiro e um analista econômico-financeiro continuam trazendo conhecimentos específicos, mas com atuação integrada em uma mesma análise, com informações processadas e velocidade imensamente superior. Isso também muda o que entendemos por produtividade. Não faz sentido continuar fazendo manualmente um cálculo que uma máquina consegue realizar em poucos segundos, mas é fundamental compreender a lógica daquele cálculo feito pela máquina. O tempo economizado precisa ser direcionado para aquilo que exige experiência, interpretação, estratégia e decisão. A capacidade de compreender o problema e fazer as perguntas certas passa a ser ainda mais importante.Ao longo da história, novas tecnologias sempre modificaram profissões e processos. Algumas funções perderam espaço, outras foram transformadas, enquanto novas surgiram. O que muda agora é a velocidade dessa transição, exigindo das pessoas uma disposição maior para continuar aprendendo, inclusive quando já acumulam décadas de experiência. Gosto de dizer que o conhecimento que uma pessoa tem no café da manhã pode não ser o mesmo que terá no jantar, concluindo o dia de maneira diferente.Isso vale para as empresas e para quem está à frente delas. O planejamento continua sendo indispensável, mas precisa conviver com uma capacidade muito maior de revisão e correção de rota. Uma empresa pode ter uma direção clara para os próximos anos, mas não pode imaginar que o caminho permanecerá exatamente o mesmo diante de uma transformação tecnológica dessa velocidade.No setor logístico, essa mudança pode ser especialmente significativa. Se carros autônomos já circulam em determinadas cidades, é possível imaginar a evolução dessa tecnologia para caminhões, inclusive elétricos e autônomos. Mas a transformação não termina no veículo. Será necessário repensar embarque e desembarque, embalagem, organização das cargas, distribuição e até o mix de produtos transportados. Quando uma parte da cadeia muda, as demais precisam acompanhar.Isso também vale para os galpões industriais. Robôs podem localizar produtos e movimentá-los de maneira programada, trazendo ganhos de velocidade, energia e organização. Também visitei um data center de grande porte, com operação contínua e poucas pessoas presencialmente, em que grande parte da gestão é automatizada e remota. São exemplos diferentes, mas apontam para a mesma direção: a automação começa a reorganizar operações inteiras e não apenas tarefas específicas.Por isso, acredito que as empresas não deveriam esperar a tecnologia chegar para, consequentemente, decidir o que fazer. Pelo contrário, é preciso olhar para dentro da própria operação, identificar custos, gargalos e processos que dependem excessivamente de trabalho manual e, a partir daí, entender quais tecnologias podem produzir ganhos concretos. Também será cada vez mais importante ter pessoas acompanhando permanentemente o que está surgindo para traduzir essas possibilidades para a realidade da empresa.Há quinze anos, a energia solar ainda parecia distante para muita gente e hoje é uma realidade consolidada. Aquilo que parece improvável agora pode se tornar comum muito mais rapidamente do que estamos preparados para admitir.Foi essa, talvez, a principal reflexão que trouxe da Califórnia. Não precisamos saber exatamente como será o mundo daqui a dez anos. Precisamos construir empresas capazes de continuar funcionando e tomar boas decisões quando o ambiente ao redor mudar. E que fique claro: já mudou.Depois de mais de três décadas empreendendo, aprendi que uma das maiores armadilhas de uma empresa é acreditar demais naquilo que funcionou até aqui. O sucesso cria conhecimento, mas também pode criar apego. Aquilo que nos trouxe até determinado ponto não necessariamente será o que nos levará ao futuro.A inteligência artificial pode processar mais informações, encontrar padrões, automatizar tarefas e reduzir o tempo entre a pergunta e a resposta. Mas alguém ainda precisa saber qual pergunta fazer, interpretar o resultado, confrontá-lo com a realidade e decidir o que fazer com aquela informação. É nesse ponto que experiência e conhecimento continuam tendo valor.Curiosamente, não voltei do Vale do Silício com uma lista de tecnologias que deveríamos implementar, mas com uma pergunta que considero a mais importante: o que precisamos mudar agora para que, quando a próxima transformação chegar, nossa empresa esteja preparada para se transformar novamente?Como parte do planejamento de metas da Fulwood para 2027, os principais executivos também receberam a missão de identificar novas alternativas para ampliar nossa capacidade de análise de informações e tornar a tomada de decisões mais ágil e eficiente. Em breve, espero compartilhar os resultados dessa iniciativa e os impactos que ela poderá trazer para a rotina da empresa.✅Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp










