Uma aurora não precisa ser observada apenas como luz no céu. Em Júpiter, o fenômeno também produz ondas de rádio. É esse mecanismo que astrônomos propõem para explicar pulsos vindos da direção de Beta Pictoris b, um planeta gigante a cerca de 63 anos-luz da Terra.

A equipe afirma ter separado a posição do sinal da posição da estrela — o detalhe que, se confirmado, permitiria atribuir a emissão ao planeta. Os dados foram captados pelo MeerKAT, conjunto de antenas na África do Sul.

O resultado ainda é preliminar. O artigo foi divulgado em 15 de setembro de 2026 como preprint, versão que ainda não passou pela revisão de outros especialistas. A hipótese é de um fenômeno magnético natural, não de uma comunicação de origem inteligente.

O planeta já tinha sido fotografado

Beta Pictoris b em imagens infravermelhas de 2014–2018. ESO/Lagrange/SPHERE consortium, CC BY 4.0.

Beta Pictoris b é um gigante gasoso com cerca de 12 vezes a massa de Júpiter, que orbita sua estrela a aproximadamente 10 unidades astronômicas, dez vezes a distância Terra-Sol, completando uma volta a cada 24 anos. O sistema é jovem, com cerca de 23 milhões de anos, e o planeta ainda é quente, com temperatura em torno de 1.700 K.

O planeta foi descoberto em 2008 por imagem direta, com o Very Large Telescope do Observatório Europeu do Sul (ESO), no Chile, que depois registrou seu movimento ao longo da órbita entre 2014 e 2018.

Em quatro sessões do MeerKAT, conjunto de 64 antenas, a equipe de Kevin Ortiz Ceballos e Edo Berger, do Center for Astrophysics | Harvard & Smithsonian, e Yvette Cendes, da Universidade de Oregon, detectou pulsos rápidos e recorrentes, além de uma emissão persistente. O preprint apresenta uma análise estatística que favorece uma origem fora da estrela.

O rádio funciona como pista do campo magnético

A interpretação dos autores é que se trata de radiação de maser ciclotrônico de elétrons, o mesmo mecanismo das auroras de rádio de Júpiter. Elétrons acelerados ao longo das linhas do campo magnético emitem ondas de rádio, e a frequência máxima dessa emissão depende da intensidade do campo. Como o sinal chegou a 3,5 GHz, o campo no local da emissão precisa ser de pelo menos 1,25 quilogauss.

Esse valor é um piso, não uma medida fechada. Ainda assim, segundo o preprint, seria a primeira medição direta da intensidade do campo magnético de um exoplaneta. À CNN, Berger comparou: o campo desse planeta é pelo menos 200 vezes mais forte que o de Júpiter.

Os autores levantam a hipótese de que a rotação rápida do planeta, de 8 a 9 horas, modula os pulsos: o primeiro e o terceiro eventos observados ficaram separados por cerca de 8 horas. Isso ainda não estabelece uma periodicidade. Pelo mesmo raciocínio, descartam como improváveis explicações baseadas no vento estelar ou na interação com uma lua.

A localização do sinal será posta à prova

O artigo ainda passa por revisão por pares, processo que, segundo a CNN, deve levar meses. Dois astrônomos que não participaram do estudo comentaram à emissora. Joseph Callingham, da Universidade de Amsterdã, disse que o ponto único do trabalho é localizar a emissão no próprio planeta, separada da estrela. Jonathan Nichols, da Universidade de Leicester, afirmou que, se a descoberta resistir ao escrutínio da revisão, será um passo importante.

Se o resultado se sustentar, os autores apontam sete outros planetas gigantes já fotografados diretamente, em cinco sistemas a até 45 parsecs, que poderiam ser os próximos alvos com radiotelescópios de 5 a 7 vezes mais sensibilidade.

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